
A poeta:
Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu no Rio de Janeiro no dia 7 de novembro de 1901, no morro de São Carlos, lugar conhecido por ser berço de escolas de samba cariocas. Sua casa simples ficava no andar de cima de um açougue. O pai de Cecília faleceu poucos meses antes do seu nascimento e a mãe logo depois de completar 3 anos de idade.
Cecília foi criada pela avó materna, uma senhora católica e portuguesa da Ilha de Açores. A poeta contava que sua infância havia sido cheia de silêncio e solidão.
Motivo (trecho)
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Cecília Meireles realizou o curso primário na Escola Estácio de Sá, onde recebeu uma medalha de ouro por ter feito o curso com louvor, das mãos do inspetor escolar Olavo Bilac. Escrevia poesia desde seus nove anos de idade. Em 1917, formou-se professora na Escola Normal do Rio de janeiro. Também estudou música e línguas. Exerceu o magistério em escolas oficiais do Rio de Janeiro.
Casou-se em 1921, com o artista plástico português Fernando Correia Dias, adquirindo com ele o gosto pelas pinturas à guache. Cecília teve três filhas: Maria Matilde, Maria Elvira e Maria Fernanda.
Ou isto ou aquilo
Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Durante quatros anos dirigiu a página de educação no Diário de Notícias. Uma curiosidade: foi ela que estreou Carlos Lacerda no jornalismo, na época, um adolescente. Tempos mais tarde, o governador Carlos Lacerda, homenageando a madrinha, inaugura a Sala Cecília Meireles, na cidade do Rio de Janeiro.
Cecília ficou reconhecida mundialmente, uma vez que suas obras foram traduzidas para muitas línguas. Realizou também diversas palestras e conferências sobre educação, literatura brasileira, teoria literária e folclore, em vários países do mundo.
Pelo trabalho realizado na literatura ela recebeu diversos prêmios, dos quais se destacam:
- Prêmio de Poesia Olavo Bilac
- Prêmio Jabuti
- Prêmio Machado de Assis.
Em 1935, seu marido, que sofria de depressão, comete suicídio. Tentando reencontrar melhoria emocional, Cecília consulta uma astróloga, que a orientou a retirada de um “L” do seu sobrenome “Meirelles”. Seus documentos não foram alterados, mas seus artigos passaram a ser assinados com apenas um “L’’.
Muitas pessoas questionavam sobre a mudança, achando que havia sido provocada pela reforma ortográfica. Com preguiça de explicar, Cecília dizia que sim, mas a sua crença no valor cabalístico das letras era a real causa da alteração no nome.
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Cecília, ao contrair novas núpcias com o educador Heitor Grillo, eleva seu astral, e a poeta continua a escrever crônicas até o fim de sua vida. Suas publicações podiam ser encontradas nos jornais como A manhã e Folha de São Paulo.
Cecília Meireles não fumava, não bebia, não jogava e adotava uma dieta macrobiótica. Sua rotina era dormir e acordar cedo. Seu café da manhã era sempre com waffles frescos passados no mel. Trabalhava em sua biblioteca, parando apenas para o almoço. Seu descanso após o período de trabalho era ouvindo músicas medievais, ibéricas e indianas.

Era uma mulher caseira, introvertida e gostava de meditação. Seus belos olhos verdes e a suavidade nos gestos e na fala eram sempre motivo de admiração.
Tinha um hobby: colecionava colheres e xícaras de café.
Apesar de não gostar de aparecer em público, duas vezes por ano costumava oferecer um jantar para seus amigos e, nos finais de semana, oferecia para a família um cardápio diferente, com comidas típicas dos lugares que havia conhecido pelo mundo, como Índia e Paquistão.
Cecília Meireles, em 1961, descobriu que tinha um câncer. Faleceu em 1964, internada no Hospital dos Servidores do Rio de Janeiro.
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Curiosidades
Numa das viagens a Portugal, em 1935, Cecília Meireles marcou um encontro com o poeta Fernando Pessoa no café A Brasileira, em Lisboa. Ficou de meio dia até às 14h00 esperando.
Frustrada, voltou para o hotel, lá chegando recebeu um livro autografado deixado pelo autor. Junto com o livro, a explicação para a ausência: Fernando Pessoa tinha lido seu horóscopo pela manhã e achou que não era um dia propício para o encontro.
– Em 1934, Cecília Meireles funda a primeira biblioteca infantil do Brasil, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro.
– No Chile, em 1964, foi inaugurada a “Biblioteca Cecília Meireles”, na província de Valparaíso.
– Em 1953, Cecília Meireles foi agraciada com o título de “Doutora Honoris Causa”, pela Universidade de Déli, na Índia.

Obras principais de Cecília Meireles
Sua obra é considerada intimista e feminina. Cecília Meireles foi uma escritora muito produtiva, escreveu muitas poesias, inclusive, infantis:
- Espectros (1919)
- Criança, meu amor (1923)
- Nunca mais… e Poemas dos Poemas (1923)
- Criança meu amor… (1924)
- Baladas para El-Rei (1925)
- O Espírito Vitorioso (1929)
- Saudação à menina de Portugal (1930)
- Batuque, Samba e Macumba (1935)
- A Festa das Letras (1937)
- Viagem (1939)
- Vaga Música (1942)
- Mar Absoluto (1945)
- Rute e Alberto (1945)
- O jardim (1947)
- Retrato Natural (1949)
- Problemas de Literatura Infantil (1950)
- Amor em Leonoreta (1952)
- Romanceiro da Inconfidência (1953)
- Batuque (1953)
- Pequeno Oratório de Santa Clara (1955)
- Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro (1955)
- Panorama Folclórico de Açores (1955)
- Canções (1956)
- Romance de Santa Cecília (1957)
- A Bíblia na Literatura Brasileira (1957)
- A Rosa (1957)
- Obra Poética (1958)
- Metal Rosicler (1960)
- Poemas Escritos na Índia (1961)
- Poemas de Israel (1963)
- Solombra (1963)
- Ou Isto ou Aquilo (1964)
- Escolha o Seu Sonho (1964)
Sugestões de leitura
Cecília Meireles – Antologia Poética
Cecília Meieles – Ou Isto ou Aquilo
Comentários
Cecília Meirelles gostava de dizer que poderia dar a volta ao mundo mesmo a pé, e essa mulher, mãe e poeta, costumava brincar com suas filhas usando a imaginação.
Depois de um dia de bom comportamento de suas três filhas, vestiam-se de fantasias e circulavam pela casa toda, pela cozinha, ao redor da mesa da sala de jantar e iam assim visitando lugares distantes, como o Oriente, com seus tapetes persas e até compras faziam, só usando a imaginação.
Admirável poetisa, estou sempre citando a frase “Ai palavras, ai palavras! Que estranha potência, a vossa!” , por achá-la incrível e muitas outras poderia aqui colocar como exemplo de “bela poesia”!
Não há dúvida da importância da sua obra. Se você não a conhece, recomendo. Boa leitura!!
Autora: Cristina Ramos
Crédito das imagens
Imagem 1: Cecília Meireles (Folhapress, Public domain, via Wikimedia Commons) , disponível em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cec%C3%ADlia-Meireles.jpg
Imagem 2: Disponível em https://graffiti.vukki.net/pt/312319
Imagem 3: Autor não identificado.
Referências:
https://www.culturagenial.com/poemas-cec
https://www.todamateria.com.br/cecilia-meireles



